O que estamos escalando? Dwarkesh sobre aprendizado contínuo, RL e o ritmo real rumo à AGI

Abrir no YouTube ↗
Visão geral

Neste ensaio narrado, originalmente publicado no blog dwarkesh.com, Dwarkesh examina uma tensão que vê no discurso de quem prevê AGI em poucos anos. Os laboratórios apostam pesado em aprendizado por reforço com recompensas verificáveis, mas essa aposta só faz sentido se os modelos não aprenderem como humanos. Dwarkesh defende que o gargalo central é o aprendizado contínuo, isto é, aprender no trabalho a partir da experiência. Espera inteligências comparáveis ao cérebro humano dentro de uma ou duas décadas, mas não com a rapidez que os mais otimistas preveem.

13 min de leitura
0:02

A contradição entre prazos curtos e o otimismo com RL

O ponto de partida é uma confusão que Dwarkesh diz sentir: algumas pessoas têm prazos curtíssimos para a AGI e, ao mesmo tempo, estão otimistas com a escala do aprendizado por reforço sobre LLMs. Na avaliação dele, se estivéssemos realmente perto de um aprendiz semelhante a um humano, toda a abordagem de treinar com resultados verificáveis estaria condenada.

Hoje os laboratórios tentam incorporar uma série de habilidades nos modelos durante o treinamento. Há toda uma cadeia de empresas construindo ambientes de RL que ensinam o modelo a navegar num navegador web ou a usar o Excel para montar modelos financeiros. Para Dwarkesh, há duas possibilidades. Ou os modelos vão aprender sozinhos no trabalho, e então esse pré-treino de habilidades é inútil. Ou não vão, e a AGI não é iminente. Humanos não precisam de uma fase especial de treino para ensaiar cada software que vão usar no emprego.

Dwarkesh cita um post recente de Beren Millidge: quando vemos modelos de ponta melhorando em benchmarks, devemos pensar não só no aumento de escala e em ideias inteligentes de pesquisa em ML, mas também nos "bilhões de dólares pagos a doutores, médicos e outros especialistas para formular perguntas e fornecer respostas de exemplo e raciocínio visando essas capacidades precisas".

1:19

Robótica como o caso mais visível

Segundo Dwarkesh, essa tensão aparece com mais clareza na robótica. Ele argumenta que, em certo sentido fundamental, a robótica é um problema de algoritmos, e não de hardware ou de dados. Com muito pouco treinamento, um humano aprende a operar o hardware atual para fazer trabalho útil. Se tivéssemos um aprendiz semelhante ao humano, a robótica estaria em grande parte resolvida. Como não temos, é preciso ir a mil casas diferentes e praticar um milhão de vezes como pegar pratos ou dobrar roupas.

1:44

O argumento do "Ilya automatizado"

Um contra-argumento que Dwarkesh diz ter ouvido de quem espera uma decolagem nos próximos cinco anos é o seguinte. Todo esse RL desajeitado serviria para construir um pesquisador de IA super-humano, e um milhão de cópias desse "Ilya automatizado" descobririam como resolver o aprendizado robusto e eficiente a partir da experiência.

Dwarkesh compara isso à velha piada: "Estamos perdendo dinheiro em cada venda, mas vamos compensar no volume." Esse pesquisador automatizado teria de descobrir o algoritmo da AGI, um problema em que humanos quebram a cabeça há mais de meio século, sem ter as capacidades básicas de aprendizado que crianças têm. Ele considera isso "super implausível".

Dwarkesh acrescenta que, mesmo para quem acredita nesse cenário, ele não descreve o que os laboratórios realmente fazem com RL de recompensa verificável. Não é preciso ensinar a habilidade de um consultor em fazer slides de PowerPoint para automatizar Ilya. Para Dwarkesh, as ações dos laboratórios revelam uma visão em que os modelos vão falhar em generalização e em aprendizado em contexto. Por isso seria necessário embutir de antemão as competências que se espera que sejam economicamente úteis.

2:48

Eficiência de treinar uma vez e o peso do contexto específico

Outro contra-argumento possível é que, mesmo que o modelo pudesse aprender essas habilidades no trabalho, seria muito mais eficiente incorporá-las uma vez no treinamento do que repetir o aprendizado para cada usuário e cada empresa. Dwarkesh concorda que faz todo o sentido integrar fluência em ferramentas comuns, como navegadores e terminais. Ele reconhece ainda que uma das grandes vantagens das AGIs será justamente compartilhar conhecimento entre cópias.

A objeção dele é que as pessoas subestimam o peso das habilidades específicas de cada empresa e contexto na maioria dos trabalhos. Hoje, segundo ele, não existe uma forma robusta e eficiente de as IAs adquirirem essas habilidades.

3:21

O macrófago na lâmina

Para ilustrar, Dwarkesh conta um jantar com uma pesquisadora de IA e uma bióloga. A bióloga tinha prazos longos para a AGI e explicou por quê: parte do seu trabalho recente no laboratório consistia em olhar lâminas e decidir se um ponto era de fato um macrófago ou apenas parecia um. A resposta veio do lado da IA: classificação de imagens é um problema clássico de deep learning, exatamente o tipo de coisa para a qual se poderia treinar esses modelos.

Para Dwarkesh, essa troca ilustra o ponto crucial que o separa de quem espera impacto econômico transformador nos próximos anos. Trabalhadores humanos são valiosos justamente porque não é preciso montar ciclos de treinamento maçantes para cada pedacinho do trabalho deles. Não é produtivo criar um sistema de treino personalizado para identificar macrófagos, considerando a forma como aquele laboratório específico prepara as lâminas, depois outro para a próxima microtarefa, e assim por diante.

O que seria necessário, segundo ele, é uma IA que aprenda com feedback semântico ou experiência autodirigida e generalize como um humano. Todos os dias uma pessoa faz cem coisas que exigem julgamento, consciência situacional e habilidades e contexto aprendidos no trabalho. Essas tarefas mudam de pessoa para pessoa e, para a mesma pessoa, de um dia para o outro. Na visão de Dwarkesh, não dá para automatizar sequer um único emprego apenas embutindo um conjunto predefinido de habilidades, muito menos todos.

Ao mesmo tempo, Dwarkesh acha que as pessoas subestimam o impacto da AGI real, porque imaginam apenas mais do regime atual. Não pensam em bilhões de inteligências humanoides num servidor, capazes de copiar e fundir todo o conhecimento. Ele afirma esperar exatamente isso, inteligências equivalentes a cérebros, dentro da próxima década ou duas.

5:21

"Atraso de difusão" como desculpa

Uma explicação comum para as IAs ainda não estarem amplamente implantadas nas empresas, gerando muito valor fora da programação, é que tecnologia demora a se difundir. Dwarkesh chama isso de desculpa. Para ele, o argumento encobre o fato de que os modelos simplesmente não têm as capacidades necessárias para gerar amplo valor econômico.

Se fossem de fato como humanos num servidor, argumenta Dwarkesh, se espalhariam incrivelmente rápido. Seriam mais fáceis de integrar e treinar do que um funcionário comum. Poderiam ler todo o Slack e o Drive da empresa em minutos e destilar na hora as habilidades dos outros funcionários de IA. Ele descreve ainda o mercado de contratação humana como um "mercado de limões": é difícil saber de antemão quem é bom, e contratar alguém que se revela ruim custa caro. Esse problema não existiria ao criar mais uma instância de um modelo de AGI já verificado. Por isso Dwarkesh espera que seja muito mais fácil difundir trabalho de IA nas empresas do que contratar uma pessoa, e empresas contratam pessoas o tempo todo.

Se as capacidades estivessem de fato no nível de AGI, raciocina Dwarkesh, haveria disposição para gastar trilhões de dólares por ano em tokens. Trabalhadores do conhecimento no mundo ganham, somados, dezenas de trilhões de dólares por ano em salários. Para ele, os laboratórios estão ordens de magnitude abaixo disso porque os modelos não chegam nem perto da capacidade desses trabalhadores.

6:51

Por que mudar os critérios às vezes é justificado

Dwarkesh antecipa a objeção: desde quando o critério passou a ser faturar trilhões? Até pouco tempo, a pergunta era se os modelos raciocinavam, se tinham bom senso, se faziam mais do que reconhecer padrões. Ele concede que os otimistas têm razão, com muita frequência, ao criticar os céticos por moverem repetidamente a linha de chegada, e que é fácil subestimar o progresso da última década.

Mas defende que alguma mudança de critério é justificada. Se tivesse visto o Gemini 3 em 2020, Dwarkesh diz que teria certeza de que ele automatizaria metade do trabalho intelectual. Fomos resolvendo o que pareciam ser os gargalos suficientes para a AGI. Hoje há modelos com compreensão geral, aprendizado com poucos exemplos e capacidade de raciocínio, e ainda assim não há AGI. A resposta racional, segundo ele, é concluir que há muito mais na inteligência e no trabalho do que se imaginava. Em muitos sentidos, os modelos já superaram o que Dwarkesh teria definido como AGI no passado. Mas o fato de as empresas não gerarem as receitas que a AGI implicaria mostra que aquela definição era estreita demais.

Dwarkesh espera que isso se repita. Ele prevê que, até 2030, os laboratórios terão avançado bastante em aprendizado contínuo e os modelos estarão gerando centenas de bilhões de dólares por ano. Ainda assim, não terão automatizado todo o trabalho do conhecimento, e ele imagina que dirá que houve muito progresso, mas ainda faltam outras capacidades. Sua formulação: os modelos continuam ficando mais impressionantes na velocidade prevista por quem tem prazos curtos, mas mais úteis na velocidade prevista por quem tem prazos longos.

8:30

O que exatamente está sendo escalado

Daí a pergunta que dá título ao ensaio. No pré-treinamento havia uma tendência extremamente clara e geral: a perda melhorava ao longo de várias ordens de magnitude de computação. Dwarkesh observa que essa tendência segue uma lei de potência, "tão fraca quanto o crescimento exponencial é forte". Mesmo assim, ele a considera quase tão previsível quanto uma lei física.

A crítica dele é que muitos tentam "lavar" o prestígio do escalonamento do pré-treino para justificar previsões otimistas sobre RL com recompensa verificável, para o qual não há nenhuma tendência pública robusta. E quando pesquisadores tentam extrair implicações dos poucos dados públicos, os resultados são bem pessimistas. Dwarkesh cita um post de Toby Ord que conecta os pontos entre os benchmarks da série o. A conclusão de Ord é que seria preciso "algo como um aumento de escala de um milhão de vezes na computação total de RL para dar um impulso semelhante ao de um único nível de GPT".

9:33

Aprendizado contínuo como motor da explosão de inteligência

Muito se discute uma "singularidade de software", em que modelos escreveriam o código de um sucessor mais inteligente, ou uma singularidade de software e hardware, em que também melhorariam o hardware do sucessor. Para Dwarkesh, esses cenários ignoram o que considera o principal motor de melhorias além da AGI: o aprendizado contínuo. Humanos ficam mais capazes em algo principalmente pela experiência no domínio.

Ele relata uma sugestão de Beren Millidge numa conversa. O futuro poderia ter agentes de aprendizado contínuo que saem, fazem trabalhos diferentes, geram valor e trazem o que aprenderam de volta a um modelo de "mente coletiva", que faz uma espécie de destilação em lote de todos eles. Os agentes poderiam ser bem especializados, contendo o que Karpathy chamou de "núcleo cognitivo" mais o conhecimento e as habilidades da função em que estão empregados.

10:25

Uma conquista gradual, não um evento único

Dwarkesh não espera que o aprendizado contínuo seja resolvido de uma vez. A comparação dele é com o aprendizado em contexto: o GPT-3 já mostrou em 2020 que ele podia ser muito poderoso, a ponto de o artigo se chamar "Language Models are Few-Shot Learners". Mesmo assim, o problema não foi resolvido ali, e ainda há muito a avançar, da compreensão ao comprimento do contexto.

Ele prevê uma trajetória parecida. Laboratórios provavelmente lançarão no próximo ano algo chamado de aprendizado contínuo, que de fato contará como progresso. Mas aprendizado no trabalho em nível humano pode levar mais cinco a dez anos para ser aprimorado. Por isso Dwarkesh não espera ganhos descontrolados do primeiro modelo que avançar nisso. Se alguém resolvesse o problema por completo do nada, seria "jogo, set, partida", como Satya disse no podcast quando Dwarkesh perguntou sobre essa possibilidade. O mais provável, para ele, é que um laboratório consiga alguma tração inicial, que fique claro pelo uso como aquilo foi implementado, e que outros laboratórios repliquem e melhorem a ideia em pouco tempo.

11:36

Por que a competição deve continuar acirrada

Por fim, Dwarkesh diz ter a expectativa prévia de que a disputa entre as empresas de modelos seguirá apertada. Ele baseia isso na observação de que os supostos "flywheels" anteriores, como engajamento de usuários no chat ou dados sintéticos, fizeram muito pouco para conter a competição crescente. Mais ou menos todo mês, as três grandes empresas se revezam no topo, com os demais concorrentes pouco atrás. Alguma força tem neutralizado qualquer vantagem disparada de um único laboratório. Dwarkesh levanta como possibilidades a caça a talentos, a "fábrica de boatos" de São Francisco ou a simples engenharia reversa, sem afirmar qual delas é a explicação.