Aaron Patterson no Rails World 2026: a regra "as-if", otimizações invisíveis e por que a IA não é o seu compilador

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Resumo

No keynote de encerramento do Rails World 2026, Aaron Patterson (Tenderlove, integrante das equipes principais do Ruby e do Rails e da equipe de infraestrutura de Ruby on Rails da Shopify) parte de uma frase conhecida, "o propósito de um sistema é o que ele faz", e propõe uma correção: o propósito de um sistema é o que ele faz para quem o observa. A partir dessa ideia, ele examina otimizações de desempenho em três camadas: o código que os desenvolvedores escrevem, com memoização e Ractors; o interpretador CRuby, que remove quadros de pilha; e o compilador JIT ZJIT, que elimina alocações por meio de interpretação abstrata. Em cada caso, a pergunta é quem consegue perceber a mudança. Na parte final, que ele mesmo chamou de "segunda apresentação", Patterson conta como agentes de IA encadearam um bug de cache do RubyGems.org e o rubydoc.info em um ataque. Sua conclusão é que um compilador promete preservar o comportamento observável do seu programa e a IA não faz essa promessa.

27 min de leitura
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Abertura: piadas sobre IA e um anúncio sério

Patterson abriu com uma sequência de piadas sobre o clima de "AI World" da conferência. Disse que tinha criado a própria distribuição Linux, "AaronXP", "codificada na vibração", com instalação de 100 milissegundos, porque reinstala o sistema operacional o tempo todo. Comentou que achava irônico fazer piada sobre a crise financeira e, em seguida, incentivar todo mundo a gerar montes de código em Rust sem lê-lo, e ofereceu vender "seguro contra dívida técnica". Também brincou que a IA transforma todos em "programadores 1.000x", corrigindo em seguida o suposto erro de digitação para "1.000 ex-programadores". Ele deixou claro, porém, que também adora usar IA.

O momento sério da abertura foi o anúncio de que Mike Dalessio é o mais novo membro da equipe principal do Rails. Patterson contou que os dois se conhecem há mais de 20 anos, desde que Dalessio enviou um pull request para o Mechanize, uma biblioteca Ruby da época. Desde então trabalharam juntos em código aberto, e Dalessio chegou a ser chefe de Patterson na Shopify. Os dois criaram a organização "Sparkle Motion" no GitHub. Segundo Patterson, ele é o "Sparkle", que sobe ao palco com gestos teatrais, e Dalessio é o "Motion", que faz o trabalho de verdade. Entre os projetos em comum estão o Nokogiri e a gem SQLite3, e Dalessio é muito ativo na equipe de segurança do Rails.

Patterson apresentou os temas do ano: desempenho, Ractors, ZJIT e IA. Mencionou também que escreveu um alocador de registradores para o ZJIT. Não falaria dele na palestra, mas quis registrar que foi o projeto mais difícil em que já trabalhou e que está muito orgulhoso do resultado.

9:20

"O propósito de um sistema é o que ele faz", para quem observa

Patterson contou que nunca tinha pensado muito na frase "o propósito de um sistema é o que ele faz" e que ela o incomoda por ser ambígua: se não sabe o que o sistema faz, também não consegue dizer qual é o propósito. Para ilustrar, imaginou viajar no tempo com um Nokia 3310, o celular "indestrutível". Alguém que nunca viu um celular poderia usá-lo como martelo. Lida literalmente, a frase diria que o propósito do aparelho é ser um martelo. Para Patterson, continua sendo um celular. O que o sistema "faz" depende de quem olha para ele.

Por isso ele reformulou a citação: o propósito de um sistema é o que ele faz para aqueles que o observam. Segundo Patterson, essa atitude observacional é bem conhecida entre implementadores de linguagens com o nome de regra "as-if" ("como se"). No C++ ela está codificada: o compilador pode aplicar qualquer transformação de otimização desde que ela não altere o comportamento observável do programa conforme especificado pela norma. Em outras palavras, o compilador pode mudar o código como quiser, contanto que a execução pareça seguir o que foi escrito.

Patterson ressalvou que a expressão "conforme especificado pela norma" é estranha no contexto de Ruby, que não tem um padrão como o do C++, mas deixou essa questão de lado. A proposta da palestra é olhar otimizações pelo ângulo do comportamento observável. Toda otimização tem dois lados: o que ela afeta e quem a observa.

13:47

Memoização e o novo observador trazido pelos Ractors

O primeiro exemplo é um padrão que, segundo Patterson, praticamente todo mundo já escreveu: memoização. Há uma função cara que só precisa ser calculada uma vez, e o resultado fica guardado em uma variável de instância. O problema é a suposição embutida de que apenas uma thread executa aquele código por vez. Existe uma condição de corrida que pode fazer o cálculo caro rodar várias vezes, e ninguém percebe porque o Ruby tem a GVL.

Os Ractors permitem paralelismo real em Ruby, e com isso os observadores do código mudam: duas threads podem de fato percorrer o mesmo caminho ao mesmo tempo. Patterson destacou que, nesse caso, os Ractors lançam uma exceção. Em vez de uma condição de corrida silenciosa que quebra o aplicativo, o desenvolvedor recebe um erro e tem a chance de corrigir o problema. Ele remeteu à palestra de Andrew no mesmo evento, que tratou disso em detalhe.

Patterson insistiu que isso não significa abandonar o padrão e mostrou dois casos. No primeiro, vários Ractors acessam a variável de instância memoizada no nível da classe Foo. Há condição de corrida, e o Ractor R1 lança uma exceção avisando que aquilo precisa ser feito de forma segura para threads. No segundo, o padrão é o mesmo, mas existe apenas um observador daquele caminho de código, e aí está tudo certo. Basta garantir que o estado fique isolado em um Ractor específico.

Como variáveis de instância no nível da classe são comuns em muitas bases de código, a próxima versão do Rails terá uma forma de lidar com elas: o módulo ActiveSupport::Ractors, com um método on_main que executa determinado código no Ractor principal. Um cálculo demorado cujo resultado precisa ficar numa variável de classe pode rodar ali. Patterson alertou, retomando a palestra de Andrew, que isso gera latência: se muito trabalho for transferido para o Ractor principal, ele vira o gargalo da aplicação e todos passam a disputá-lo.

Sempre que possível, ele recomendou a gem de estruturas de dados compatíveis com Ractor escrita por Koichi Sasada, autor principal dos Ractors (citada na palestra como "Ractor sharing"). Patterson se corrigiu no palco: não "espera" que funcione bem, "vai funcionar". Ele destacou duas estruturas dessa gem que resolvem o problema da memoização, e a escolha entre elas depende da vazão desejada:

  • Lock variables (variáveis de bloqueio) garantem que o cálculo ocorra exatamente uma vez. Servem para cálculos não idempotentes.
  • TVars permitem que o cálculo ocorra uma ou algumas vezes. Servem quando o cálculo é idempotente e repeti-lo ocasionalmente é aceitável.
16:29

O alcance limitado dos problemas com Ractors

Patterson disse que não queria assustar ninguém. Pela forma como os Ractors são implementados, ele argumenta, não haverá deadlocks nem problemas de segurança de threads, e sim exceções. Além disso, acredita que o alcance desses problemas seja bastante limitado.

Para sustentar isso, mostrou um servidor web simulado baseado em Ractors: um laço infinito lê requisições do socket e atende cada uma dentro de um Ractor. No ciclo normal de requisição e resposta, a maioria dos objetos é alocada dentro do método serve. O desenvolvedor só precisa se preocupar quando o código acessa algo externo, como constantes ou valores de configuração. Na avaliação de Patterson, o número desses pontos de contato é bem menor do que as pessoas imaginam.

19:45

GC local por Ractor no Ruby 4.1 e os objetos compartilhados implicitamente

O tema seguinte é como a observabilidade de dados afeta o desempenho. Patterson explicou que o coletor de lixo do Ruby é um singleton: todo Ractor que precisa alocar um objeto pede ao GC, e com vários Ractors em paralelo isso vira um gargalo. O Ruby 4.1 será lançado com coleta de lixo local por Ractor, com heaps separados para cada um, o que elimina esse gargalo.

Ele levantou uma possibilidade teórica: no servidor simulado, criar um Ractor novo a cada requisição e simplesmente descartar o heap inteiro ao final, o que daria coletas mais eficientes. Patterson disse que gostaria que a história terminasse ali, mas ela é mais complicada. Num exemplo de produtor e consumidor, o produtor aloca um objeto no próprio heap e o passa ao consumidor. O object_id mostra que os dois apontam exatamente para o mesmo objeto. Quando um desses Ractors termina, não dá para descartar seu heap, porque outros Ractors ainda podem apontar para ele. A solução é um GC global, que Patterson comparou a uma coleta "major" que, idealmente, ocorre com menos frequência.

O segundo exemplo, que ele disse já ter mostrado no Rails World do ano anterior, envolve compartilhamento implícito. Ao analisar dois documentos JSON, as chaves resultantes são o mesmo objeto, com o mesmo object_id. Se o código for dividido em vários Ractors, a string "hello" continua tendo o mesmo ID em todos eles, porque as chaves são desduplicadas entre Ractors. Na prática, a string é alocada no heap do Ractor principal e os outros apontam para ela. O ponto de Patterson é que isso pode afetar o desempenho do GC sem que o desenvolvedor saiba, porque acontece de forma implícita.

Callbacks do ActiveSupport: mais quadros de pilha do que o esperado

Depois das otimizações feitas por desenvolvedores, Patterson passou às do framework e da linguagem, a começar por inconsistências nos backtraces. Ele montou um "ActiveRecord simulado" com os callbacks do ActiveSupport: um módulo com um método save que executa callbacks de salvamento e imprime a pilha de chamadas de dentro do callback. A expectativa é ver o bloco de run_callbacks, depois o quadro de save e, no topo, main.

Sem callbacks, há de fato três quadros. Com um callback before, continuam três. Ao definir um callback around, o rastreamento de pilha cresce muito, embora nada dentro de save tenha mudado. Investigando, Patterson encontrou um comentário no ActiveSupport que ele achou engraçado. Diz que, como o método é usado em muitos lugares e costuma envolver grandes trechos de código do usuário, ele tem o objetivo adicional de minimizar seu impacto na pilha visível: uma exceção num callback before ou after pode fazer todo o ruído que quiser, mas quando o controle passa para o bloco fornecido, o código deve deixar o mínimo possível de indícios de que esteve ali. Para Patterson, é exatamente a regra "as-if". Ele disse perdoar o caso do around, porque o código da aplicação passou a fazer mais trabalho, e então é natural que apareçam mais quadros.

26:12

O Class#new que sumiu no Ruby 4.0

A pergunta seguinte foi se é possível ver menos quadros do que o esperado. Patterson brincou que gosta mesmo de passar os fins de semana contando quadros de pilha e que não acha que isso o torne um perdedor.

No exemplo, o método 1 chama o 2, que chama o 3, que instancia Foo, cujo initialize chama o método 4. A pilha esperada é initialize, new, 3, 2, 1, main, e é o que aparece no Ruby 3.4. No Ruby 4.0, o quadro de Class#new desaparece.

Para explicar, Patterson comparou as instruções da VM geradas para o método 3 nas duas versões. O Ruby 4.0 gera muito mais instruções porque a chamada a initialize foi colocada inline no local da chamada a new. Em pseudocódigo Ruby, a lógica é: se o new de Foo for a implementação padrão, aloca-se o objeto, chama-se initialize diretamente e devolve-se o objeto; se não for, segue-se um caminho lento que chama new. Como agora é o método 3 que chama initialize diretamente, o quadro de new some.

Ele demonstrou o caminho lento com um "monkey patch" simples de new, que apenas chama super. Antes do patch, o backtrace vem pelo caminho rápido, sem new. Depois dele, o quadro de new volta a aparecer.

O motivo de todo esse trabalho, segundo Patterson, é que as alocações ficam mais rápidas. No exemplo mostrado, a alocação no Ruby 4.0 é 70% mais rápida do que na versão anterior, e isso sem compilador JIT. O custo foi um quadro de chamada, e os afetados são quem inspeciona a pilha: o próprio chamador, depuradores e ferramentas semelhantes. Patterson considera a troca boa.

Ele disse que o CRuby faz isso o tempo todo e deu mais um exemplo. Uma classe Foo implementa hash e imprime a pilha sempre que o método é chamado. O código dispara o cálculo de hash de três maneiras. Seria de esperar que as duas primeiras produzissem a mesma pilha e a terceira uma pilha diferente, mas com a mesma profundidade. Na prática as pilhas são completamente diferentes, e em uma delas o quadro de um método chamador simplesmente não aparece.

Otimizações de baixo risco: as áreas cinzentas da regra

Patterson perguntou à plateia se alguém se importa com esses quadros sumidos. Quase ninguém levantou a mão, e ele disse que era exatamente essa a reação que queria: se as pessoas se importassem, recursos assim não poderiam ser implementados. Ele descreve esses casos como áreas cinzentas da regra "as-if". Estritamente falando, a execução mudou e dá para perceber a diferença, mas as pessoas não se importam. Em Ruby, e segundo ele na maioria das linguagens, é preciso preservar o comportamento onde ele realmente importa. Patterson chama essas mudanças de otimizações de baixo risco: alteram o comportamento da linguagem em pontos com que, em geral, ninguém se preocupa.

32:15

Dentro do ZJIT: apostas de alto risco com rede de segurança

Em seguida vieram as otimizações de alto risco dentro do ZJIT. Segundo Patterson, o ZJIT pode fazê-las porque consegue desfazer uma otimização quando algo inesperado acontece.

O ZJIT tem duas representações intermediárias: uma de alto nível (HIR) e uma de baixo nível (LIR). Quem quiser examinar o HIR pode passar ao Ruby a opção de dump do HIR do ZJIT. Uma das suposições do ZJIT é que o programa provavelmente não vai redefinir métodos. Se redefinir, o compilador precisa saber, para continuar se comportando corretamente.

No exemplo, um ponto é alocado e um método chamado dentro de um bloco 5.times invoca métodos desse ponto. No HIR, Patterson destacou três coisas: o bloco compilado; o método get colocado inline dentro do bloco, com a inserção de um quadro inline; e a constante 42 levada para dentro do bloco. O ZJIT transformou o código original em uma versão bem mais simples.

A aposta é ousada porque, como ele observou, ninguém se importa com um quadro de pilha a menos, mas se o código redefinir get ou x, a versão compilada deixaria de se comportar como esperado e violaria a regra "as-if". O HIR contém "patch points", um para a redefinição de get e outro para a de x. Eles não geram código de máquina nenhum. São marcadores que indicam onde o código de máquina deve ser corrigido.

Patterson mostrou o código de máquina antes e depois da invalidação, num cenário em que o bloco é compilado, o método x é redefinido e o bloco é compilado de novo. Quando a invalidação ocorre, o JIT literalmente sobrescreve o código de máquina: o marcador aponta para uma instrução de teste, que é substituída por um salto para um código de saída. Esse código de saída restaura o estado interno e a pilha da VM, e a execução continua na máquina virtual do Ruby.

A detecção depende do próprio CRuby. Quando um método é redefinido, os caches precisam ser invalidados de qualquer forma, e esse é o momento ideal para o JIT invalidar também o código compilado. O compilador registra quais métodos compilou e, quando algum é redefinido, invalida o código de máquina associado, tanto no YJIT quanto no ZJIT.

A redefinição de métodos não é a única invariante monitorada. Patterson citou as operações básicas (BOPs), por exemplo garantir que + continue significando soma; as constantes, que não podem ter sido redefinidas; e os TracePoints, porque um TracePoint ativo permite observar coisas que o JIT pode ter otimizado e removido, o que quebraria a regra "as-if". Há outras, e ele convidou quem tivesse interesse a conversar depois.

37:06

"IA" no ZJIT: interpretação abstrata e a eliminação de alocações

Patterson brincou que, já que estava no "AI World", o ZJIT também usa muita "IA", mas no sentido de abstract interpretation, interpretação abstrata. Aproveitou para convidar quem quisesse "trabalhar com IA" a contribuir com o ZJIT. Interpretação abstrata, explicou, é fingir executar o código e deixar que as otimizações surjam a partir dessa simulação.

O exemplo foi um servidor de teste que passa cerca de 1.000 requisições falsas por uma aplicação Rack e mede quantos objetos foram alocados. Sem JIT, são cerca de 1.000 objetos, o que faz sentido para 1.000 requisições. Com YJIT, o número é praticamente o mesmo. Com ZJIT, são 8 objetos.

As alocações vêm do array devolvido pelo método call da aplicação Rack, com status, cabeçalhos e corpo. Patterson reconstruiu o raciocínio do compilador passo a passo:

  1. O ZJIT coloca a chamada a call inline dentro do método serve.
  2. O código é reescrito com variáveis temporárias. Status, cabeçalhos e corpo passam a ser atribuídos a variáveis intermediárias, o que não altera o comportamento do programa.
  3. O interpretador abstrato percorre o código mantendo um heap abstrato, que registra como os objetos ficariam se o programa fosse executado. v1 recebe 200, v2 recebe a constante dos cabeçalhos, v3 recebe o corpo e v4 recebe um array abstrato contendo v1, v2 e v3, sem que importe quais são esses valores.
  4. Status, cabeçalhos e corpo são lidos dos elementos do array. Como o heap abstrato sabe que o primeiro elemento é v1, e assim por diante, dá para fazer substituição algébrica.
  5. Depois da substituição, v4 não é usado em lugar nenhum, então pode ser eliminado. Com ele desaparece a alocação do array.
  6. As variáveis intermediárias também podem ser removidas, com atribuições diretas. O processo se repete com mais inlining.

Combinando inlining, propagação de constantes e interpretação abstrata, o ZJIT transforma o código original numa versão sem aquelas alocações. Patterson recapitulou as camadas vistas até ali (paralelismo com Ractors, eliminação de quadros de pilha no interpretador, inlining e eliminação de alocações no JIT) e perguntou à plateia se essa última otimização viola a regra "as-if", já que a mudança pode ser observada contando alocações. Sua resposta pessoal foi que ele não se importa e acha ótimo reduzir as alocações.

A segunda história: RubyGems e o incidente com a OpenAI

Patterson disse que ia encerrar ali, mas que na verdade eram "duas apresentações em uma". Com uns 12 minutos restantes, contou da sua perspectiva um episódio recente da comunidade: o incidente envolvendo o RubyGems e a OpenAI. Ele comentou que não tinha intenção original de falar do assunto e que passou o dia anterior inteiro montando os slides.

Nos dias 11 e 12 de maio, o RubyGems.org começou a receber milhares de gems indesejadas. Depois isso seria chamado de campanha "gem stuffer", mas na época ainda não tinha nome. Em 12 de maio, Moshe Mansfield, que trabalha no RubyGems.org revisando pacotes novos, tornou o ataque público no Twitter: o RubyGems.org estava sob um grave ataque malicioso e os cadastros estavam suspensos. Em 13 de maio, a Socket.dev publicou um post chamando o caso de "ataque gem stuffer".

Patterson leu o post. A descrição era de gems com um script malicioso que fazia requisições a sites do governo do Reino Unido, baixava os dados, empacotava tudo numa gem e a enviava de volta ao RubyGems.org. O post dizia que era possível saber se alguém tinha sido vítima procurando certos arquivos no sistema de arquivos. Aquilo lhe pareceu estranho. Ele lembrou que, ao instalar uma extensão C, o extconf é executado, o que já é uma forma conhecida de execução remota de código. Mas o script malicioso não estava num extconf. Na avaliação dele naquele momento, instalar a gem não executaria o script, e alguém teria de rodá-lo de propósito. O post não explicava como nem em que circunstâncias o código seria executado. Patterson achou esquisito e seguiu adiante. Em 16 de maio os cadastros reabriram, e ele não pensou mais no assunto.

47:22

O bug de cache que ficou seis anos em produção

Em 6 de julho, Luke Marshall, da equipe de segurança da Truffle, notificou a equipe do RubyGems.org sobre um problema de cache. Patterson esclareceu que trabalha no cliente RubyGems, não no servidor, mas que as equipes conversam e trabalham juntas.

Ele explicou o mecanismo. Pelo lado da vítima, a autorização antiga era feita com uma requisição GET: ao rodar o comando de autenticação do gem, o cliente fazia uma autenticação básica e o servidor respondia com a chave de API em um formato específico. Patterson pediu à plateia que guardasse esse formato na memória. Pelo lado do atacante, a Fastly ficava na frente do RubyGems.org e armazenava em cache as respostas GET. Um atacante que fizesse a mesma requisição sem cabeçalho de autorização podia receber de volta a chave de outra pessoa, vinda do cache.

Segundo Patterson, o problema ficou em produção por cerca de seis anos, e ele apontou alguns motivos para ninguém ter notado. Até onde se sabia na época, não havia indícios de abuso. Para acontecer, era preciso enviar Accept-Encoding: gzip, o que o curl não faz por padrão, embora o Net::HTTP faça. Além disso, um mantenedor que recebesse a chave de outra pessoa e tentasse um gem push veria apenas uma mensagem de que não estava autorizado a publicar a própria gem, faria login de novo, o problema sumiria e ele seguiria em frente. Só o código antigo do RubyGems usava esse fluxo, e o cache expirava após uma hora. Três dias depois do relatório, a correção foi lançada e o problema, segundo ele, ficou totalmente resolvido.

50:36

O e-mail inesperado e o script "leaker"

Em 8 de setembro, no trabalho, Patterson recebeu uma mensagem direta da colega Emily avisando que chegaria um e-mail de Gemma, ex-colega dele que trabalha na Anthropic, sobre um hack muito grave no RubyGems. Ele respondeu que Gemma poderia simplesmente mandar o e-mail, e Emily lembrou que ele é péssimo com e-mails. Gemma o apresentou a uma pessoa chamada Neev, e Patterson entrou em pânico, procurando freneticamente na caixa de entrada e no HackerOne algum relatório que pudesse ter perdido. Não achou nada e pediu desculpas. A resposta foi que não se tratava de um problema atual do RubyGems: havia uma pesquisadora de segurança tentando falar com alguém do projeto.

Então veio o e-mail de Sydney von Arx dizendo que agentes da OpenAI tinham tentado explorar a vulnerabilidade de cache do RubyGems e que quatro pacotes enviados tentaram usá-la para roubar chaves de API de usuários. A primeira reação de Patterson foi achar aquilo uma besteira. Mesmo assim, "tentando ser uma pessoa responsável", clicou nos links e leu o código.

No trecho que mostrou, ele destacou quatro coisas. Havia um comentário no início sobre "variantes de chaves vazadas". O código estava num arquivo script.rb, dentro de uma gem chamada sln-leaker-5. O script fazia uma requisição GET ao caminho de autorização do RubyGems.org. E no final havia uma expressão regular que batia com o formato da chave de autenticação que ele tinha mostrado antes. Foi aí que entendeu que aquilo estava de fato tentando invadir o RubyGems.org.

54:29

Como o rubydoc.info virou o vetor do ataque

Na reunião com a pesquisadora, Patterson voltou à dúvida de maio: o código estava em script.rb, não no extconf, então como alguém o executaria? A resposta foi que ele rodava no rubydoc.info, um servidor que exibe a documentação de gems.

As gems maliciosas incluíam um arquivo .yardopts com uma instrução para carregar ./script.rb. Segundo Patterson, a gem YARD instala um plugin do RubyGems. Quando outra gem é instalada, o plugin procura um .yardopts dentro dela e, se encontra, executa o que ele indica.

O ciclo, como Patterson o descreveu, funcionava assim:

  1. Um bot envia uma gem ao RubyGems.org.
  2. O RubyGems.org dispara um webhook para o rubydoc.info, um serviço completamente independente.
  3. O rubydoc.info baixa a gem e a processa dentro de um contêiner Docker que ainda tinha acesso à rede.
  4. O script malicioso é executado, baixa dados do governo do Reino Unido e os empacota numa gem.
  5. Essa gem é enviada ao RubyGems.org, que dispara um novo webhook, e o ciclo recomeça.

Patterson disse que ficou de queixo caído ao ver todas as peças se encaixando e refez a cronologia. As gems da campanha têm data de envio de 11 de maio. O relatório sobre o cache chegou em 6 de julho, enviado por alguém totalmente independente da OpenAI, que descobriu o problema por conta própria. Ou seja, os bots já sabiam da falha um ou dois meses antes. Ele acrescentou que tudo isso aconteceu bem antes da violação de segurança da Hugging Face. Em 12 de setembro, Sydney e sua equipe publicaram a análise em rubyhack.ai, que Patterson recomendou como detalhada e muito boa.

O que o apavorou foi o que os bots descobriram sozinhos: que o RubyGems.org envia um webhook ao rubydoc.info; que o YARD executa código arbitrário; e que o rubydoc.info processa a documentação com acesso à rede. Ele acrescentou uma hipótese, apresentada explicitamente como suspeita. Nem todas as gems da campanha contêm o código que tenta obter chaves. Para ele, isso indica que, quando a equipe do RubyGems.org começou a desativar contas e impedir logins, o bot precisou de outra forma de se autenticar sem credenciais e passou a explorar a vulnerabilidade de cache, então um zero-day. Patterson chamou o conjunto de máquina de Rube Goldberg.

O final, segundo ele, foi feliz. A equipe do RubyGems.org resolveu tudo e fechou os vazamentos, e, até onde se sabe, ninguém foi explorado e ninguém na comunidade sofreu danos. Ele agradeceu à equipe.

59:22

Otimista, mas sem se render: a IA não é o seu compilador

Para fechar, Patterson se declarou otimista em relação à IA e depois corrigiu para apenas "otimista": disse que este é o melhor momento para estar vivo e que acredita que as coisas vão melhorar. Usa IA todos os dias para escrever código. Mas, para ele, ser otimista sobre a IA ou sobre o futuro não significa se render a ela.

Ele citou um argumento que já ouviu: a IA seria só o próximo compilador, e, assim como ninguém lê o código de máquina gerado pelo compilador, não haveria motivo para ler o código gerado pela IA. Patterson disse entender o argumento até certo ponto, porque de fato quase ninguém lê o código de máquina do compilador. A diferença, segundo ele, é que o compilador fez uma promessa, a regra "as-if": faça o que fizer, o comportamento observável corresponde ao código que você escreveu. Tudo o que ele mostrou na palestra, dos Ractors aos patch points do ZJIT, ilustra o custo de cumprir essa promessa.

A IA não fez essa promessa, disse ele, e não existe regra "as-if" para o inglês. Por isso Patterson afirmou que não vai entregar seu destino à IA, que vai continuar lendo o próprio código e que espera que a plateia faça o mesmo. Encerrou com o slide "Get in, loser, we're going programming" ("Entra aí, perdedor, vamos programar").